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Prática agrícola tradicional fortalece organização comunitária no quilombo de Praia Grande
A "reunida", como é chamado o trabalho coletivo de executar uma tarefa agrícola, foi realizada no dia primeiro de maio para colheita de arroz pela comunidade de Praia Grande. Foram colhidas mais de 35 sacas de 50 litros em apenas um dia de trabalho. O registro da prática foi realizado pelo ISA e integra o Inventário de Referências Culturais Quilombolas do Vale do Ribeira.
A prática coletiva tradicional entre os quilombolas de Praia Grande, no Vale do Ribeira, em São Paulo, é uma das referências culturais quilombolas da região que poderá se perder caso a usina hidrelétrica de Tijuco Alto venha a ser construída. Localizada no município de Iporanga, Praia Grande, que tem 1.584,8 hectares ainda não titulados e se estende pelas duas margens do Alto Rio Ribeira, será fatalmente impactada, com mais de 90% de seu território inundado já que a barragem está prevista para ser construída a jusante do rio.
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| Território quilombola de Praia Grande ao longo do Rio Ribeira |
Mais do que cumprir a tarefa agrícola, a “reunida” tem uma função social central para a vida quilombola: reforça laços de compadrio e a colaboração interfamiliar e fortalece relações intercomunitárias. Os trabalhos organizados em “reunidas” e mutirões fortalecem a ligação das famílias com um espaço territorial mais amplo, além das áreas domésticas de cada núcleo familiar. A colaboração e coletivização daí resultantes reforçam o sentimento de pertencimento e a identidade comunitária. Ambos são vetores de mobilização política de luta pelos direitos territoriais reservados às comunidades quilombolas.
A "reunida" de colheita de arroz em Praia Grande foi organizada por Manoel Moura (seu Mané) e sua mulher Iracema, que haviam plantado o arrozal 6 meses antes. Os trabalhos começaram na casa dos anfitriões às 4 horas da manhã, e só terminaram no amanhecer do dia seguinte, após o baile de confraternização que brindou o sucesso da safra. Participaram mais de 50 pessoas, entre homens, mulheres e crianças das comunidades de Praia Grande, João Surrá (rio acima, no Estado do Paraná) e Pilões, esta também situada no município de Iporanga.
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| Seu Mané, anfitrião da reunida e dono do arrozal, carrega feixe de arroz para malhação |
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| Mulheres participam da colheita de arroz |
Os anfitriões ofereceram as refeições aos participantes, cujo cardápio se compunha de arroz, feijão, batata-doce, mandioca, chuchu e farinha, cultivados nas roças da comunidade. O porco, abatido para a ocasião, foi comprado de um integrante da comunidade. Os pães eram caseiros e os sucos feitos com frutas do local. Produtos industrializados só café, açúcar e óleo.
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| Almoço é servido na roça |
A colheita e o baile
O arroz é colhido aos cachos, com facas e facões. Para separar os grãos do caule, os homens reúnem feixes e os batem sobre uma estrutura de madeira com fendas que permitem que os grãos caiam sobre a lona estendida no chão. Para evitar a dispersão dos grãos para as laterais, os homens estendem lonas na vertical.
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| Lonas fazem a conteção dos grãos de arroz |
Depois, realizam a malhação, pisoteando os pequenos caules de arroz para separar os grãos que restaram. Com exceção da “bateção” dos feixes maiores, realizada apenas por homens, as demais etapas podem ser realizadas por todos os participantes da “reunida”. O almoço, que estava sendo preparado pelas mulheres no fogão a lenha, foi servido no espaço da roça, em meio ao arrozal.
Ao final da “reunida”, os músicos da comunidade animaram o baile com duas sanfonas, pandeiros, dois violões e uma timba. No baile, forrós, xotes e valsas embalaram os casais a noite toda Não há restrições para os pares: podem ser marido e mulher, compadres e comadres, comadres e comadres, crianças e adultos e crianças com crianças. O baile não terminou enquanto o sol não despontou.
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| Arroz colhido e batido está pronto para ser malhado |
Toda a produção de arroz destina-se ao consumo da comunidade. Parte dela foi distribuída aos participantes da “reunida”. Para o consumo, o arroz deverá ser socado nos pilões para separar a casca dos grãos. Os conhecimentos, procedimentos e ferramentas envolvidos no plantio, colheita, processamento e a preparação para o consumo, como o cuscuz de arroz com amendoim, integram o sistema agrícola da comunidade quilombola de Praia Grande, configurando um bem cultural fundamental de seu patrimônio imaterial.
ISA, Anna Maria Andrade.

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