Minha Missão
Nascida no dia um de fevereiro de 1943, fui vítima na infância.
Com um ano de vida, enrolada num cobertor, fui ameaçada de ser jogada no Rio Ribeira pela minha tia Ana, quando a minha mãe estava ausente, porque eu estava chorando. Foi a minha irmã Orácia que me salvou.
Quando eu tinha três anos, meu pai foi perdendo a saúde. Minha mãe estava grávida, e eu fui mandada para a casa da minha tia Pedrina para ela cuidar de mim até minha mãe ganhar nenê. Lá começou o meu sofrimento.
No dia 22 de maio de 1948, minha mãe ganhou nenê, o qual chamou-se Renato. Meu pai, muito alegre, olhou para mamãe e para o nenê e disse: “Tenho dó de vocês, mas não sei o que Deus vai fazer de mim. Já perdi a coragem de trabalhar para cuidar de vocês”.
Ele chamou os seus filhos mais velhos – João (15 anos), Orácio (13 anos), Doraci (11 anos) – e disse para eles cuidarem da mãe deles e de seus irmãos mais novos – eu, Raul e Renato, que acabara de nascer – até que Deus decidisse o que seria feito dele.
João, o mais velho, teve de cuidar da família. Enfrentou sol, chuva e frio para comprar comida e remédio.
Mamãe cuidava da casa, mas papai cada vez piorava mais. Após oito meses, meu pai faleceu. Isto foi no dia 18 de janeiro de 1949.
Meu sofrimento só aumentava. Voltei para casa muito alegre e contente por voltar a estar com os meus irmãos, mas o meu destino estava traçado e nova batalha se iniciou. Minha mãe estava muito triste, pensando em como fazer para pagar as contas e cuidar de seus 6 filhos.
Seis dias após o falecimento do meu pai, minha tia Joanita, irmã de minha mãe, a qual morava no Castelhano, do outro lado da Ribeira, veio visitar minha mãe para confortá-la. Vendo que minha mãe estava muito triste e abatida, propôs que minha me entregasse, e que ela cuidasse de mim até que a minha mãe tivesse condições de me buscar. Minha mãe concordou, e disse que logo me buscaria.
Minha tia, muito esperta, enganou a minha mãe e não disse que estava de mudança para o centro de Eldorado. Oito dias depois, ela, seu marido, e seus dois filhos, mudaram-se para a cidade de Eldorado, e me levaram, sem a autorização da minha mãe.
Nem deixaram o endereço do meu paradeiro. Quando minha mãe soube, ela ficou triste, mas disfarçou, dizendo que minha tia era sua irmã, e não iria maltratar a sua filhinha. No entanto, ela se lembrou das últimas palavras de papai, o qual segurou a mão dela e disse: “Isulina, minha esposa, sei que estou na última hora da minha vida aqui na terra, e que não tenho nada para te deixar, nem aos nossos filhos, que ainda são muito pequenos. Cuide bem deles, não os maltrate, sei que Deus vai te ajudar a criá-los”. Ele fechou os olhos e não abriu mais.
Enquanto isso, minha tia me levou para outro bairro chamado “Meninos”. Lá, eu fui atacada por um boi toureiro, e comecei a ficar doente.
Meu tio trabalhava o dia inteiro, e só chegava em casa tarde. Então, a minha tia me obrigava a trabalhar até eu não agüentar, e eu até levava chicotadas. De repente, eu comecei a me alimentar de cinzas. Minha tia descobriu, me deu uma surra, e me colocou de castigo.
Depois, novamente mudamos para o centro de Eldorado. Minha tia continuava me batendo e me castigando, e não me alimentava direito e nem me dava remédio.
Eu continuava comendo cinzas porque o verme me atacava e eu sentia muita tontura.
Aos dez anos, eu já tinha completado um ano e seis meses nesse sofrimento. De repente, minha tia Odete, que também morava no centro de Eldorado, mas eu não conhecia, recebeu uma carta da mãe dela pedindo que ela procurasse a filha de Isulina, que deveria estar no centro de Eldorado, na casa de Joanita. Minha mãe pediu para ser informada pelo tio Guilherme.
Ao ler a carta, minha tia Odete ficou curiosa, e rapidamente foi me procurar. Logo me encontrou, e perguntou para minha tia de quem eu era filha. Minha tia falou, mas a tia Odete não disse nada, só pediu para que ela me mandasse para a casa do tio Guilherme. Ela me mandou para lá, e o meu tio Guilherme quis saber quem eu era. A Tia Odete disse que eu era filha do tio Viturino e desde que ele faleceu , eu estava com a tia Joanita, mas que a minha mãe, a Tia Isulina, nunca mais teve notícia, e pediu para eu fosse procurada no centro de Eldorado, e que se fosse encontrada, que fosse entregue ao tio Guilherme, para que ele pudesse avisá-la.
Eu estava muito doente, e o meu tio ficou chocado ao ver sua sobrinha tão maltratada, e também por descobrir que eu estava tão perto e ele não sabia. Ele disse que no dia seguinte ele estava indo para o sítio, e chegando lá ele iria informar a minha mãe.
Assim que chegou no sítio, ele foi procurar a minha mãe. Tio Guilherme foi na casa do negociante Antonio Julio da Silva, e perguntou se ele tinha notícias de Isulina, esposa do falecido Viturino. Ele disse que sim, e que naquele mesmo dia ela estaria vindo para acertar um negócio. Tio Guilherme pediu para avisá-la urgentemente que sua filha tinha sido encontrada, e estava muito doente. Tio Guilherme também disse que estava voltando para o centro de Eldorado para buscar a sua mudança e se ofereceu para buscar a menina, a qual poderia vir na mesma canoa das malas de roupa e dos móveis.
O negociante Antonio Julio da Silva transmitiu o recado. Quando minha mãe soube, ela ficou revoltada. Ela escreveu uma carta para a irmã pedindo para que eu fosse entregue ao Tio Guilherme.
No domingo próximo, Tio Guilherme chegou no centro de Eldorado, e entregou a carta para Tia Joanita. Ela me entregou, e meu tio chamou três vizinhos para testemunharem que eu estava muito mal de saúde. Tio Guilherme temia que eu morresse durante a viagem. No entanto, correu tudo bem. Na quarta-feira, nós chegamos no Nhunguara e, então, meu tio mandou que minha tia Otávia avisasse a minha mãe.
No sábado, minha mãe e minha irmã foram me buscar. No domingo, já estava na casa de minha mãe. Lá, a família, os irmãos e os vizinhos se uniram para lutar pela recuperação da minha saúde. Eu tomava todo dia um copo de remédio. Também me levaram para o benzedor, mas quase nada adiantou. Eu fui piorando até que minha mãe desanimasse de mim. Depois de quatro meses de luta, eu estava entre a vida e a morte e, então, apareceu uma visita que disse para minha mãe que eu estava com amarelão, que é um verme que suga todo o sangue da pessoa. Esta visita disse que só a lumbrigueira “esquilostomina” é capaz de acabar com este verme. Disse que se mamãe não desse este remédio, eu morreria. Minha mãe comprou o remédio, e no dia seguinte me deu seis comprimidos às 5 horas da madrugada. Às 10 horas, ela me deu laxante. Eu joguei muito verme, e no dia seguinte fiquei tomando canja de arroz sem sal. No dia seguinte, deram-me mais seis comprimidos no mesmo horário, e também o laxante. Depois, explodiu uma bolsa de ovos de verme, e eu evacuei tudo que tinha no meu intestino.
Todos ficaram admirados com a minha recuperação depois de dois anos de sofrimento.
Comecei a trabalhar com 7 anos, e até os 11 anos trabalhei de babá em casa de família. Aos onze anos, comecei a trabalhar na roça e fiquei um ano e seis meses na casa do meu tio Luiz Furquim, irmão de meu pai, onde eu aprendi muitas histórias do passado.
Aos 13 anos, eu resolvi enfrentar outro desafio – eu não sabia ler nem escrever porque não tinha escola perto para eu estudar, mas eu sonhava com o dia que eu aprenderia a ler e escrever. O pai da minha colega Servina pagava pensão para ela morar no Castelhano e assim poder estudar. Ela estudou até a terceira série, e depois voltou para casa. Servina falou que poderia me ensinar desde que seu pai deixasse. Ele concordou, desde que fosse só à noite.
Eu e minha mãe trabalhávamos o dia todo de segunda à sexta-feira para garantir o pão. Saíamos para o trabalho às 5 horas da manhã, e caminhávamos por 40 minutos. Só chegávamos em casa lá pelas 9 horas da noite. Portanto, eu não tive medo das dificuldades que certamente encontraria.
Continuei trabalhando fortemente, ganhava dinheiro e separava a metade para o sustento da família, e a outra metade para comprar material para estudo como caderno, lápis, borracha, lampião e querosene.
Então, eu comecei a estudar. Estudava das 10 horas da noite até uma hora da manhã, e às quatro e meia da manhã eu já estava acordada. Seguia para casa rapidamente para não perder o horário de chegar na casa do patrão.
Enfrentei chuva, lama, noite escura, madrugada fria, sono, cansaço, mas valeu a pena. Rapidamente, eu aprendi. Aos 17 anos, eu fui estudar no colégio das irmãs em Apiaí. Lá, eu aprendi muito mais e, aos 18 anos, eu fui catequista na comunidade vizinha.
Aos 19 anos, eu me casei. Nós dois temos a mesma idade. Casamos no dia 17 de outubro de 1962.
Aprendi que o sofrimento faz parte da nossa vida quando a gente sofre por amor em Deus e pelos irmãos. Quando o casal se ama, não importa se é rico ou se é pobre. O que importa é ser unido e ter amor. A união, a paciência e a fé são o suficiente para lutar contra o mal, e para viver a vida a dois.
Começamos a nossa vida de casado. Não levou muitos dias para eu começar a ficar doente. Em seguida, sofri cinco abortos. Meu marido comprava muito remédio, mas eu não conseguia segurar a gestação. Todos estavam preocupados com a minha saúde, mas um dia o negociante S. Antônio Júlio disse para o meu esposo que ele poderia trazer um vidro de sangue de São Paulo. Ele disse que se eu não me recuperasse, eu poderia estar tuberculosa, mas eu não acreditei.
Depois de oito dias, o remédio chegou de manhã, e eu bebi um cálice. Eu fiquei tão fraca que dormi por 9 horas. Eu continuei bebendo o remédio. Depois de quinze dias, eu já me sentia uma mulher forte, curada, corajosa. Comecei a trabalhar, sorrir e cantar, e logo engravidei.
No dia primeiro de dezembro de 1964, nasceu minha filha Ivone. Em seguida, tive mais três filhos. Depois, sofri mais dois abortos. Em seguida, tive mais 4 filhos.
Eu fiquei muito doente na gestação do caçula. Muita dor e crises todos os dias. Passei nove meses deitada na cama. Só levantava para ir ao hospital fazer o pré-natal. Precisava que me levassem carregada até o local do transporte. Todos tinham pena de mim, mas comentavam que eu não sobreviveria.
Como eu poderia não agüentar na hora do parto, as parteiras se recusavam a me atender quando eu pedia. Perto da minha casa, morava minha irmã Doraci, que era uma boa parteira, junto com meu cunhado Francisco.
No dia 4 de outubro de 1986, eu comecei a sentir dores de parto. Meu esposo andou depressa para procurar transporte para me levar no hospital, mas não encontrou. Não tinha nenhum meio de comunicação. Então, minha irmã Doraci disse que agora não tinha jeito, e que fosse feito o que Deus quisesse. Ela resolveu cuidar de mim, e fez remédio caseiro – sabedoria da mata.
A dor aumentou, mas a criança não nascia. Minha mãe, meus filhos, e meu cunhado Francisco estavam em desespero. Meu marido e minha irmã faziam-se de duros, mas estavam com medo. Eu estava sem força, com a vista escura, suando frio. A parteira sabia o que estava impedindo a criança de nascer, e disse que eu estava na mãe de Deus.
Naquela hora, meu pensamento correu depressa, meu coração bateu forte, e eu falei no coração de Nossa Senhora Aparecida Protetora das Parteiras e do Glorioso Santo Expedito, o santo das coisas urgentes, para implorarem a Deus por mim e pelo meu filho que está para nascer. Se fosse para morrer, eu queria levar meu filho comigo.
Em um segundo, minha irmã tirou uma criança de dentro de mim. Eu estava muito fraca e minha vista escureceu. Quatro dias depois, eu vi meu filhinho. Minha irmã me explicou o que tinha acontecido: a criança tinha um tumor e tinha um lado da cabeça maior que o outro, o que estava impedindo que a criança nascesse. Meu filho ficou com a cabeça marcada, e apesar da intervenção de Nossa Senhora, ele é um devoto de Santo Expedito. Ele carrega na carteira a imagem desse santo protetor de sua vida. Eu fico admirada dele ser tão devoto.
Desta forma, eu e o meu marido tivemos 8 filhos, 7 homens e uma mulher. Meus filhos são muito obedientes e educados. Nunca deram uma má resposta para nós, e tratam todo mundo muito bem.
Depois de um ano, eu recuperei a minha saúde. Sofri muito. Eu já era líder da Igreja desde 1987. Fiquei sem força nas pernas. Não ficava de pé sozinha, mas meus sobrinhos e meu cunhado, Francisco, levavam-me até a Igreja, e me traziam de volta.
Assim mesmo doente, eu não larguei a minha missão. Meu esposo tratou de mim e de nossos filhos com muita paciência e carinho. Sofria para ganhar o pão. Trabalhava de bóia-fria. Meu filho Laudonatel era que lavava toda a roupa. Ivone já era casada e morava longe. Só vinha de 15 em 15 dias me visitar.
Tudo correu bem. Recuperei a saúde com a graça de Deus.
Esta história faz com que a família viva unida, na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, e tenha muita paz.
Sou uma lutadora pelos direitos humanos, pela Igreja, e pelo povo. Desde que meu irmão de criação, Carlos Pereira, foi assassinado por causa de um conflito de terra, e seu padrasto João, que era meu irmão natural, ficou ferido, meu coração nunca parou de chorar.
Eu sempre me lembro desta cena. Meu irmão João foi para o Pronto-Socorro e Carlos ficou 24 horas no mesmo local em que caiu. Desenho-se um caixão de sangue ao redor do seu corpo. A mãe, a nora, e os netos se banharam de sangue de tanto abraçar o corpo dele caído. A esposa de João chorava desesperadamente.
O povo, em silêncio, esperava pela polícia. Às quatro horas da tarde, a Polícia chegou. Levaram um dos assassinos para a delegacia de Iporanga.
Há muitos anos, a mãe de Carlos e a minha enviuvaram. Como a situação financeira era muito difícil, as duas combinaram de morar juntas, e formar uma família só. Para sustentar a família, tinham que trabalhar fora e ainda cortar palmito.
Eu e as outras crianças fazíamos todo o serviço da casa, e ainda sobrava tempo para brincar. Pegávamos lenha, cana, banana, água no rio, e ainda pescávamos e íamos para a roça. Fazíamos tudo que estava ao nosso alcance. Domingo, brincávamos na floresta o dia inteiro. Não brigávamos, e éramos todos unidos como se fossemos filhos de uma mãe só.
Carlos morreu para defender seu povo que desde 1969 vinha sendo ameaçado de perder as terras do Tiatan, que pertencia a Dora Machado, uma das mulheres de Bernardo Furquim.
Bernardo Furquim foi o fundador da comunidade. Ele teve várias mulheres em locais diferentes, sendo que teve quatro relacionamentos permanentes. Gerou 24 filhos conhecidos, sendo que o meu avô (Graciano Furquim) foi um deles.
Esta é a minha história, minha luta e minha missão.
Jovita Furquim de França

